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O dia que meu pai voltou do Iraque para ficar

Na noite de um ano em que não me lembro, meu pai bateu na nossa janela e voltou para ficar de vez

09/08/2020 18h18
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Por: Primeira Leitura | Redação Fonte: Cris Mendonça
(Imagem: Tatiana Syrikova no Pexels)
(Imagem: Tatiana Syrikova no Pexels)

Na noite de um ano em que não me lembro, meu pai bateu na nossa janela e voltou para ficar de vez. Trazia na mala, brinquedos, seu sorriso de dever cumprido e um coração cheio de esperança. Voltava do Iraque – país onde trabalhou por dois anos, entre idas e vindas – para  começar no Brasil, a sua vida de fato. 

Filho de uma casa com 12 irmãos onde tudo era dividido e a palavra “não” era servida, diariamente, com um pouco de arroz e feijão, meu pai aprendeu desde cedo o valor do trabalho. No Oriente Médio, entre tempestades de areia e saudades, juntou o suficiente para investir no próprio negócio no Brasil, garantindo assim, o sustento da família que, com seus vinte e poucos anos, ele já tinha.

Quando voltou ainda eram anos difíceis, mas tudo exalava o perfume dos bons começos: meus irmãos e eu ainda pequeninos, minha mãe e ele tão jovens, o portão de ferro que rangia ao nosso passar e as verduras, do seu novo estabelecimento, tão frescas quanto a nossa vida. As bancas de madeira pintadas de azul, as cebolas e as batatas amarelas e a balança Filizola vermelha  - alugada por falta de condições para comprá-la – decoravam o mercado do meu pai, que a exemplo do meu avó, tinha o comércio nas veias. 

Ele que, até os quatro anos da minha vida era uma figura efêmera, indo e vindo em nossa casa, agora trabalhava no cômodo ao lado e nos acompanhava 24 horas. Diante dos olhos  do homem que vivia entre a doçura da abóbora e a acidez do limão, crescíamos nem sempre sabendo combinar os diferentes sabores. Éramos verdes como as couves colhidas em um pequeno quintal. 

Hoje compreendo, porém, que graças à miscelânea de cores, gentes e sabores daquele comércio, aprendi a conviver com as nuances. Descobri, através dos gestos, o amor que meu pai sempre me ofereceu: a comida na mesa, a disciplina na palavra e o afeto no sorriso cerrado. Um amor que nem sempre parecia doce, mas me fez resiliente. Entendi cedo que na velha Filizola, meu pai pesava não somente as batatas, mas também o nosso amor, sabendo exatamente o valor que cada coisa tinha. 

Os sentimentos nem sempre estavam expostos nas bancas de madeira porque pessoas, assim como algumas frutas, não amadurecem à força: carecem da estação certa para estarem prontas para a colheita. Os defensivos que aceleram o metabolismo, prejudicam o sabor… E a natureza sábia nos ensina que é prudente esperar a hora certa da colheita. 

O tempo passou. Meu pai e eu, não somos mais verdes e ácidos, tampouco maduros e passados, mas estamos plenos do que somos nós dois: sementes da nossa ancestralidade, porém sempre capazes de novos frutos.

 

*Coluna Crônicas da Cris. Primeira Leitura. | Texto escrito por Cris Mendonça. Todos os direitos reservados.

**O texto é de responsabilidade do autor e não representa a opinião do Primeira Leitura. 

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Sobre CRÔNICAS DA CRIS
O espaço é dedicado a textos autorais de Cris Mendonça. Jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo". Contato: www.crismendonca.com.br
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