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Saúde Fanatismo

Quando uma preferência se torna doença

Todos nós temos nossas afeições, tendências, escolhas,afinidades e posicionamentos. Tais preferências, no entanto, quando exacerbadas podem ser caracterizadas como um transtorno mental, popularmente chamado de fanatismo.

06/07/2020 10h55 Atualizada há 5 meses
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Por: Primeira Leitura | Redação Fonte: Dr. Antuany Casarino Almohalha
Fanatismo, imposição (Imagem: Pixabay)
Fanatismo, imposição (Imagem: Pixabay)

Existe aquele velho ditado popular: "futebol, política e religião não se discute". Mas há uma grande diferença entre pessoas ter opiniões divergentes e um indivíduo achar que existe uma resposta única para as questões que o envolve e não respeitar outros pontos de vista devido a uma crença muito forte sobre determinado assunto, com fundamentos irrefutáveis já pré estabelecidos.

Ao discorrermos sobre esse tema, caso haja um leitor portador desse Transtorno Mental, possivelmente o mesmo buscará alguma justificativa sem fundamentação lógica para interromper a leitura. Como se existisse algum direcionamento crítico contrário a sua crença julgada como inquestionável e superior. Ora! Mas em momento algum no texto há um juízo de valor, opinião, posicionamento ou mesmo citação de clubes, grupos políticos e religiões. Mesmo assim, um fanático nesse momento buscará qualquer justificativa para impedir que seja abalada sua crença irrefutável, gerando o descrédito de qualquer argumento aqui apresentado que possa ser contrário as suas  convicções, mesmo que para isso tenha que fantasiar um pensamento ilógico como: " tenho certeza que o autor desse texto é defensor do partido X, do clube Y ou da religião Z".

Dessa forma, qualquer conteúdo escrito não deve ser creditado, pois para o fanático vai de encontro com suas convicções extraordinárias e inabaláveis. Uma proposição verdadeira como: "se Pelé é o rei do futebol, logo é um bom jogador"; terá sua lógica negada pelo portador desse transtorno, caso o jogador não seja do seu time, ou seja, ele passa a ser incapaz de reconhecer a qualidade do jogador mesmo sendo um fato irrefutável. Outro exemplo seria o fanatismo político. A pessoa se fecha no candidato “A” e não adiantam opiniões, informações ou parâmetros sobre outro candidato. Se você não vota nele é você que está errado e não presta, igual ao candidato de sua preferência. Isso porque a ideia do fanático está consolidada e não irá mudar, independente de qualquer fato que vá de encontro as suas convicções.

O que ocorre nesses casos é  uma distorção cognitiva com "estreitamento no campo da consciência". Mas o que essa expressão significaria? Uma redução da percepção do ambiente como um todo, gerando um hiperfoco voltado para a crença fundamental. Tudo passa a girar em torno de sua crença e grande parte do dia é dedicado a ela.

Por conseguinte, sentimento e comportamento se tornam desproporcionais diante de uma situação que envolva a crença. Sentimento de ódio e comportamento de agressividade são comuns entre os fanáticos. Os relacionamentos se tornam secundários a causa defendida, ou seja, a prioridade é a manutenção daquele pensamento, mesmo que, para isso tenha uma quebra de vínculo familiar, conjugal e no trabalho, por exemplo. Não importa praticar atos ilegais, imorais, ofender pessoas, não ter empatia se for em prol de uma causa. Assim, o questionamento se torna ainda mais complicado, mesmo quando feito por pessoas próximas.

O fanatismo pode, portanto, ser enquadrado na categoria de transtorno psicótico. É, particularmente um transtorno delirante persistente.

No transtorno delirante persistente, o paciente possui um juízo patologicamente falseado, uma convicção extraordinária e irremovível, uma crença absolutamente inabalável. Portanto, tal impossibilidade de sujeitar-se as influências de quaisquer correções, seja através da experiência ou da argumentação lógica, gera na pessoa uma crença tão real, tão intensa, que chega ao ponto de não conseguir criticar o próprio pensamento. É uma doença egodistônica, ou seja, os pensamentos, impulsos, atitudes, comportamentos e sentimentos não perturbam a própria pessoa.

Assim, apesar de ser uma entidade psiquiátrica com características bem definidas de doença mental, a pessoa por conseguir viver bem com o fanatismo sem sofrimento pessoal significativo, não busca por tratamento. Isso não significa, porém, que o fanático não tenha prejuízos. Conforme já citado anteriormente, o comprometimento da crítica pode gerar prejuízos nas relações interpessoais, conjugal e no trabalho, uma vez que, os fanáticos podem viver em prol da tentativa de impor suas crenças para as outras pessoas, gerando inclusive comportamentos agressivos.

Características

Uma característica marcante do fanático é a incapacidade de ter lucidez a respeito da chamada tentativa e erro. Quando erramos, fazemos uma autocrítica e aprendemos como agir de outra maneira. Já o fanático transfere a culpa ao outro, pois possui incapacidade de reconhecer o erro do seu político, clube de futebol ou religião, por exemplo.

Um terceiro fator agravante é o ambiente de convivência. Os fanáticos buscam ficar perto de pessoas que têm opiniões semelhantes. Esse comportamento adotado, no entanto, dificulta ainda mais a crítica sobre sua própria convicção, sendo que o nosso cérebro para consolidar uma informação utiliza de mecanismos como a repetição. Dessa forma, pertencendo ao mesmo clã, as informações serão reafirmadas conforme seus desejos: uma lavagem cerebral.

Diante do apresentado, é importante deixar claro que tal condição médica é um transtorno mental assim como diversos outros e que existem terapias e medicamentos capazes de corrigir ou amenizar essa disfunção cerebral. Para isso, porém, é necessária avaliação médica especializada para diagnóstico e tratamento.

 

*Coluna Bem Estar. Primeira Leitura. | Texto escrito por Dr. Antuany Casarino Almohalha. Todos os direitos reservados.

**O texto é de responsabilidade do autor e não representa a opinião do Primeira Leitura.

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Sobre BEM ESTAR
A Coluna aborda cuidados com o corpo e a mente, bem como a mediação entre público e especialista. Dr. Antuany Casarino Almohalha é médico com atuação em Psiquiatria e Clínica Médica; Graduação em Medicina pela UFMG; Membro Aspirante da Associação Brasileira de Psiquiatria-ABP; Membro Aspirante da Associação Mineira de Psiquiatria-AMP; Membro da Associação Médica de Minas Gerais-AMMG; Perito Judicial em Conselho da Justiça Federal-CJF e Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais-TJMG.
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