Segunda, 23 de Novembro de 2020
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Pop Art Luta por Igualdade

O racismo e a luta por igualdade no cotidiano de artistas negros mineiros

Sob o manto da ideia de democracia racial, a violência racista estrutural e institucional permanece presente no dia a dia dos brasileiros

05/07/2020 12h13 Atualizada há 5 meses
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Por: Primeira Leitura | Redação Fonte: Alex Bessas | O Tempo | Reprodução
Maurício Tizumba localiza em seu cotidiano diversas situações de racismo (imagem: Belisário Tonsich/Divulgação)
Maurício Tizumba localiza em seu cotidiano diversas situações de racismo (imagem: Belisário Tonsich/Divulgação)

O falar saborosamente cantado denunciava a expectativa e a empolgação do cantor, compositor e multi-instrumentista mineiro Maurício Tizumba quando explanava, à reportagem, sobre a live que realizaria dali a poucas horas em homenagem a seu compadre Vander Lee (1966-2016). Enquanto se preparava para o elogiado show, que foi exibido com sucesso pelas redes sociais no início de junho, entre boas memórias e afetos de amizade, o músico foi tomado por um sentimento inequívoco de orgulho ao perceber que as composições do saudoso belo-horizontino pareciam ter sido feitas de encomenda para o seu canto e, por isso, pensou que sim, seria oportuno ter um cuidado especial com o próprio visual para o evento. Afinal, uma certa despreocupação com questões deste naipe, natural a todos que vêm cumprindo com a responsabilidade devida a quarentena; não combinava exatamente com a ocasião. Mas bastou sair de casa para comprar equipamentos de barbear em uma drogaria para que a boa expectativa fosse trocada por chagas abertas de uma vida de enfrentamento ao racismo: usando a máscara facial, recomendada pelas autoridades sanitárias e por decretos municipais e estaduais para o enfrentamento da pandemia da Covid-19, Tizumba lamenta ter sido seguido do momento em que entrou até o que saiu do estabelecimento.

Lamentavelmente, o episódio ainda é até hoje parte da rotina de um artista do calibre de Tizumba - e também de um sem-número de pessoas negras Brasil afora, anônimas ou não. E justamente por ainda ser cotidiana, a cena recruscedeu no artista a sensação de estremecimento e indignação que há muito orbita a sociedade e que, nos últimos meses, tornou-se mais evidente após um episódio que repercutiu em todo o mundo. Estamos nos referindo, claro, ao caso de George Floyd, asfixiado até a morte, durante nada menos que oito minutos, por um policial branco, com antecedentes do uso da violência em abordagens, em nova e truculenta ação. O assassinato do rapaz norte-americano, em 25 de maio, desencadeou a maior onda de protestos antirracistas nos Estados Unidos desde a morte do líder Martin Luther King Jr, em 1968. Realizados há mais de um mês no país, os atos públicos do movimento Black Lives Matter, vale dizer, são justificadamente renovados a cada vez que um novo caso de violência institucional de teor racista vem a público.

A onda de protestos se espalhou por diversos países e chegou também ao Brasil - nação que, cumpre frisar, tem longo histórico na realização de mobilização contra a violência do Estado direcionada à população negra. Mas desta vez, o repúdio a essa abominável chaga parece estar despertando a atenção de uma fatia maior da população para a luta antirracista. Um indício dessa tendência é fornecido por um estudo realizado pela Ipsos, com entrevistados de 15 países e divulgado no final de junho. De acordo com o levantamento, 76% dos brasileiros apoiam os protestos pacíficos e as manifestações que estão tomando as ruas norte-americanas (e de outros países) desde o assassinato de Floyd.

Para além da solidariedade em relação ao trágico episódio, o país tem muito a dizer sobre seus próprios mortos e sobre o seu próprio povo que, por sua cor, é vítima de violações de direitos. “A cada 23 minutos, um jovem negro morre no Brasil”, revelou a Organização das Nações Unidas (ONU), com base em números do Mapa da Violência, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), ao lançar, no início do mês passado, a campanha “Vidas Negras”, denunciando a violência relacionada ao racismo que perpassa todo território nacional.

Acúmulo de fatores resulta em momento histórico

“Estamos diante de um marco histórico”, defende Denilson Tourinho, ator, mestre em educação e idealizador do Prêmio Leda Maria Inês de artes negras, que, aliás, chega à sua quarta edição neste ano. “Há um entrecruzamento de fatos e de dados da realidade, todos em uma perspectiva emocional mais aguçada, que fizeram eclodir um grito de basta”, analisa. A velocidade com que as informações são disseminadas é um dos fatores dessa equação: “Tudo é transmitido de imediato e ao vivo. É como se estivéssemos presentes em todos os locais em que acontecem os atos e, fundamentalmente, passamos a participar também das reflexões”. 

Outro elemento é a sensação de vulnerabilidade quase universal causada pela pandemia. “Essas discussões nem sempre chegavam para todas as camadas da sociedade e, mesmo que chegassem, muitos não se sentiam sensibilizados para esses dados, que eram vistos como algo fictício. Agora, com as pessoas em isolamento social, com as telas dos celulares e computadores trazendo essas informações constantemente… Há uma inquietação que tirou tantos do lugar de conforto”, elabora Tourinho, lembrando, por outro lado, que as condições sociais afetam a forma como a doença é manifesta na sociedade.

Pessoas levantam as mãos e se ajoelham enquanto protestam no memorial improvisado em homenagem a George Floyd, em 2 de junho de 2020 em Minneapolis, Minnesota (Imagem: Chadam Khanna/ AFP)

 

De fato, a  primeira edição da Pnad Covid-19, pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicou que pretos e pardos são mais afetados pelo novo coronavírus. O grupo, que corresponde a 54,8% da população, soma 70% dos casos sintomáticos da Covid-19. Mais uma evidência de como, ao longo da história, questões epidemiológicas e sanitárias são atravessadas por dimensões políticas e sociais, de forma que pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica tornam-se mais suscetíveis a manifestações mais graves de doenças.

A pesquisadora científica e multiartista Zaika dos Santos também crê que “os movimentos atuais podem fazer com que parte da população brasileira que  invisibiliza as lutas que têm demarcação histórica do movimento negro no Brasil, passem a rever o seu lugar na história”, reflete, asseverando que a luta antirracista não deve ser limitada a uma sensibilidade momentânea e, sim, entendida como pauta cotidiana. Das mais urgentes.

Zaika pondera ainda que “o racismo não pertence a nós, afrodescendentes, e sim à cognição e à historicidade branca colonialista, eugenista, universalista abstrata e hegemônica que versa a dominação sobre a diversidade”, diz. Ela ainda lembra que ser negro no Brasil é lidar com a violência. Para se ter uma ideia, no Rio de Janeiro, considerando indivíduos que vivem no mesmo bairro e possuem a mesma idade e o mesmo estado civil, pretos e pardos terão 23,5% mais chances de serem mortos - de acordo com o estudo “Democracia racial e homicídios de jovens negros na cidade partida”. 

Discriminação se esconde sob o manto da ideia de uma democracia racial

Expressão mais dolorosa da série de abusos, a letalidade evidenciada pela campanha da ONU já vinha sendo tratada por intelectuais, políticos e ativistas como um genocídio da juventude negra e periférica. Ainda que a mais visível, esta não é a única face da violência contra a qual essa parcela da população precisa se insurgir. 

“Resumiria o racismo brasileiro como difuso, sutil, evasivo, camuflado, silenciado em suas expressões e manifestações, porém eficiente em seus objetivos, e algumas pessoas talvez suponham que seja mais sofisticado e inteligente que o de outros povos”, sintetiza o intelectual Kabengele Munanga no artigo “As ambiguidades do racismo à brasileira” publicado no livro “O racismo e o Negro no Brasil”, de 2017. 

Trata-se de um processo de preconceito e de segregação que se pretende invisível e se esconde sob o manto da ideia de uma democracia racial, mas que mortifica. Foi essa a sensação de Maurício Tizumba ao deixar a drogaria depois da malfadada compra de um aparelho de barbear. Agora, quando lembra do episódio, as palavras emocionadas do artista já não soam mais cantadas como quando ao falar da homenagem a Lee. E as memórias que o atravessam não dizem sobre amizade - ao contrário, elas vêm de um outro lugar: o de alguém que, em guerra, combate diuturnamente o racismo desde que ainda era uma criança. 

“Tenho lembranças da infância de ter ganhado tapa e bicudo da polícia na rua, sem nenhum motivo. Por isso, aos 11 anos, eu já estava no Movimento Negro Unificado (MNU, grupo de ativismo político, cultural e social criado no final dos anos 70). E, hoje (no dia da entrevista), fui seguido em uma farmácia por me julgarem um bandido. Então, não mudou muita coisa de lá para cá”, lamenta Tizumba, que segue, em fluxo de consciência, lembrando diversas outras situações de preconceito racial: “É algo que vai acontecer em qualquer espaço, inclusive nos espaços da arte e da cultura. Nós, negros, não temos descanso! Antes da pandemia, quando estava saindo da sala da superintendência do Palácio das Artes (na região Central de Belo Horizonte), um menino disse que o telefone que eu estava usando era dele, que era o telefone que tinham roubado dele”.

As memórias de Tizumba possuem diversos pontos de confluência com as de Sérgio Pererê. O também cantor, compositor e multi-instrumentista recorda, desde muito pequeno, ter sido ensinado a lidar com insultos racistas. “Minha mãe tinha que ensinar palavras para responder a alguma ofensa. Era natural que a gente fosse xingado, em algum momento, quando saia para brincar. Na escola, o tempo todo isso acontecia, por parte dos colegas e dos professores”, indica.

“Dentro da arte, isso chega a ser mais cruel”, completa Pererê, sinalizando que se sente constantemente diminuído, como se sua obra não pudesse ser universal, mas apenas dedicada a um nicho: “Sou um artista e sou negro, sempre que sou convidado para falar sobre música, sobre arte, já se espera que eu fale especificamente sobre a questão negra, como se eu não pudesse falar da arte como um todo”, critica.

Esse condicionamento, observa, “me impede de exercer meu trabalho com plenitude, o que, por sua vez, me impede de ter uma dignidade na vida”. Para ele, aliás, tratar a música negra como algo segmentado não faz o menor sentido. “Toda a música brasileira tem base na música africana. Maxixe, lambada, samba, são todos nomes de origem africana. Quando a gente amplia para América Latina é a mesma coisa: tango, milonga, é tudo nome africano... A contribuição negra, portanto, não é uma questão secundária: é da base. A música brasileira, em si, é uma música negra”, reflete.

O cantor acredita ser mais difícil combater o que chama de um racismo camuflado, que, por vezes, finge respeito e interesse, mas que, no fim das contas, segrega. “Existe o racismo que mata, do sangue, que enforca, que sufoca, que é agressivo fisicamente. Este eu chamo de racismo estúpido, e ele nos dá alguma margem da reação. Mas existe também esse outro racismo, mais estrutural, ao qual é mais difícil de responder”, avalia.

Um episódio que escancara esse tipo de violação está na maneira como, mesmo na condição de um artista premiado, Pererê encontra dificuldade para ter acesso a certos serviços. “Fui ao Rio de Janeiro receber um prêmio e, na volta, quando cheguei na rodoviária de BH pelo ônibus que faz a conexão do aeroporto, levei horas tentando conseguir um táxi para chegar em casa. No fim, desisti e tive que ir a pé”, recorda.

Maioria acredita que forças de segurança são mais violentas contra negros

Sérgio Pererê acredita que recentes movimentos devem acordar o próprio povo negro (Imagem: Athos Souza/ Divulgação)

 

Episódios de racismo institucional também são lembrados com facilidade por Sérgio Pererê: “Coisas que já passei com meus filhos, de a polícia parar para revistar a gente, de tentar entrar em um estabelecimento e ser convidado a me retirar... A gente passa por essas coisas todo dia e, na verdade, o fato de ser artista é quase uma proteção: tem aqueles que olham e nos reconhecem. Então, enquanto artista, o que vivencio é esse outro lugar, da estrutura. O que posso te dizer é que é coisa de uma vida inteira”.

A constante convivência com abordagens policiais e o fato de aprenderem desde cedo como reagir nessas situações - como evidenciam os relatos de Tizumba e de Pererê - são sintomas de um ecossistema que promove o encarceramento de pessoas pretas e pardas. O grupo étnico corresponde a 65% da população presa, conforme dados do último levantamento com recorte racial divulgado pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2016.

Além disso, esse desigual tratamento das forças de segurança do Estado, mais ameno para indivíduos brancos e mais duro para os negros, é percebido por larga maioria da população. É o que demonstra uma pesquisa recente, divulgada em junho pelo Instituto Locomotiva e encomendada pela Central Única das Favelas (CUFA), segundo a qual para 94% dos brasileiros uma pessoa negra tem mais chances de ser morta em uma abordagem policial do que uma pessoa não-negra.

“Um barulho para acordar a gente mesmo”

Ao falar sobres as manifestações que vão ganhando o mundo, Pererê primeiro lamenta: “Quando vou dizer algo sobre esses protestos tenho que entender que eles são uma reação e é triste que ainda tenhamos que reagir, é sinal que essa violência segue presente”. Para ele, “qualquer tipo de mudança que vier a acontecer vai vir de nós, de nós negros. Não dá mais para que a gente espere que os brancos se sensibilizem. Acredito que precisamos potencializar nossas bases. Pensar quem são as lideranças negras que estão dispostas a discutir e convocar a comunidade. Acredito que esse tipo de barulho é para acordar a gente mesmo”, sustenta. 

Já Maurício Tizumba, ao relembrar a morte de Floyd e de João Pedro - que, dentro de casa, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, foi morto a tiros por policiais em 18 de maio -, traz à memória o nome de outras vítimas das forças de segurança do Estado, como Amarildo, ajudante de pedreiro que ficou conhecido nacionalmente por conta de seu desaparecimento, desde o dia 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais. Ele também cita o caso de Pedro Gonzaga, que aos 19 anos foi sufocado por um segurança em um supermercado no Rio de Janeiro em 14 de fevereiro de 2019. 

“Espero que as pessoas, comovidas agora, não se esqueçam dessas histórias”, diz. O músico ainda lamenta a execução da vereadora carioca Marielle Franco, em 14 de março de 2018 - crime que segue em investigação e, mais de dois anos depois, ainda não foi esclarecido. “Quando representantes da negritude chegam a posições de poder, esse será o tratamento?”, questiona, inconformado.

“Quando eu tinha 8 anos de idade, Luther King ainda era vivo. Eu fiz uma composição em homenagem a ele. Um trecho da letra, na minha inocência, dizia que a luta estava perto do fim. Estava errado e eu vou mudar essa música. É uma luta que não tem fim”, conclui.

 

*Texto original por Alex Bessas | O Tempo. Texto adaptado Por Primeira Leitura.

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